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Baixos salários e enormes desigualdades agravam a crise

por Eugénio Rosa [*]

Se se analisar a situação dos trabalhadores em Portugal com base na remuneração média, como é habitual, pode-se ficar com a ideia de que a maioria dos trabalhadores portugueses recebe em média, por mês, 1019€, pois foi este o valor divulgado pelo INE em set/2020 como sendo a remuneração bruta base mensal média. No entanto, isso é uma pura ilusão pois não corresponde à verdade.

2,1 MILHÕES DE TRABALHADORES LEVAM PARA CASA MENOS DE 900€ POR MÊS

O quadro 1 com dados do INE mostra as profundas desigualdades salariais existentes em Portugal

No 3º Trim.2020, 52,5% dos trabalhadores portugueses (2.102.100) levavam para casa menos de 900€ por mês e apenas 1,9% (76.000) tinham mais de 2500€/mês. Baixos salários e desigualdades é a norma no Portugal de hoje o que torna as consequências da crise atual ainda mais graves.

A DIFERENÇA DE REMUNERAÇÕES ENTRE SETORES DA ECONOMIA CHEGA A ATINGIR 460%

Mas as desigualdades salariais no nosso país ainda se tornam percetíveis e claras quando se analisa as diferenças existentes na remuneração bruta (antes do desconto para a Segurança Social e CGA, e do IRS) média mensal de setor de para setor de atividade económica. O quadro 1, com dados divulgados pelo INE em nov.2020, mostra as enormes desigualdades existentes.

Quadro 2 – Remuneração bruta base mensal média
por setor de atividade, Set/2020

Em set.2020, segundo o INE, a remuneração bruta base mensal média do conjunto de todos os setores de atividade económica era de 1019€ por mês. No entanto, não se pense que essa era a remuneração da esmagadora maioria dos trabalhadores de todos os setores de atividade económica.

Os dados do INE do quadro 1, revelam que se se a analisar a remuneração bruta base média dos diferentes setores de atividade económica conclui-se que se verificam diferenças enormes entre elas. Por ex., se se comparar a remuneração bruta mensal do setor em que ela é mais elevada – eletricidade e gás com 2364€ por mês – com a do setor em que ela é mais baixa – atividade administrativas e serviços de apoio com 660€ por mês – conclui-se que a primeira é 3,6 vezes superior (é superior em 460%) à segunda. Se a análise for feita tomando como base a remuneração bruta média total – 1019€/mês – conclui-se que na agricultura, que emprega 93,6 mil trabalhadores, ela era em média inferior 33,9% por mês; na industria extrativa era superior em 1,2% por mês; nas industrias transformadoras, que em empregavam 675,8 mil trabalhadores, era inferior em 9,7%; na construção, que empregava 289,4 mil trabalhadores, era inferior em 23,4%; na restauração em -32,3%, etc..

A RIQUEZA CRIADA NO PAÍS É REPARTIDA DE UMA FORMA MUITO DESIGUAL

Os baixos salários praticados em Portugal e as desigualdades enormes que se verificam nas remunerações entre os diferentes setores de atividade económica são uma consequência do perfil da economia portuguesa (uma economia fundamentalmente de tecnologia média, média-baixa e baixa que cresceu até 2019 à custa de baixos salários) mas também de uma profunda desigualdade na repartição da riqueza criada no país (PIB). O gráfico 1 mostra com clareza essa realidade.

Em 2019, apenas 35% da riqueza criada no país revertia para TRABALHO (trabalhadores) que eram 4.009.600, sob a forma de ordenados e salários, enquanto 41% revertia para o CAPITAL sob a forma de Excedente Bruto de Exploração, que eram 224.700 (os que empregavam trabalhadores por conta de outrem).

A PARCELA QUE REVERTE PARA O "CAPITAL" TEM CRESCIDO MUITO MAIS DO QUE A DO "TRABALHO"

O quadro 3 (INE), mostra que com crise ou sem crise a parcela da riqueza que reverte para o "CAPITAL" tem crescido nos últimos anos muito mais do que a que reverte para o "TRABALHO".

Entre 2009 e 2019, a riqueza criada (PIB), a preços correntes, aumentou em 29.767,7 milhões € (+21,6%), os Ordenados e salários subiram apenas em 5.649,9 milhões € (+13,8%), mas o Excedente Bruto de Exploração, que reverte para o CAPITAL cresceu em 12.224,9 milhões € (+20,8%), ou seja mais 116,4% do que reverteu para o TRABALHO.

05/Dezembro/2020
[*] edr2@netcabo.pt

Este artigo encontra-se em https://resistir.info/ .
08/Dez/20
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